O “Teatro, Vinho e Pensamento” (TVP) recebeu quarta-feira passada Elias Andreato para uma conversa que se mostrou intensamente afetiva. Bate-papos de extrema liberdade tem ocorrido a cada evento, em que tanto o artista-provocador quanto os demais participantes se colocam com extremo respeito e pertinência, trazendo ao teatro aquilo que lhe cabe: prazer e conhecimento.Elias contou como chegou ao teatro, pela função de camareiro e contra-regra. Apesar de não ter formação acadêmica em teatro é um estimulador de quem quer tomar tal iniciativa. Ele disse que o ator de hoje precisa ser esperto, ler muito, ter opinião sobre o próprio trabalhho. Não é mais como no início da sua carreira em que valorizava-se o ator “bom executador” da vontade do diretor.
Mesmo depois de ter tido um longo período de parceria com Paulo Autran, a dificuldade em produzir seus trabalhos e o questionamentos sobre como atingir o público continuam - desde como fazer as pessoas irem ao teatro até como poder comunicar-se de forma eficaz com elas. Sua peça “Doido” continua em cartaz no teatro da Livraria Cultura no Conjunto Nacional às quintas e sextas, 21h, baseado em textos de grandes escritores e pensadores. É uma boa maneira de se juntar ao seu pensamento teatral, tendo servido de referência em muitos momentos do nosso bate-papo.
Sobre a simplicaidade do espetáculo, ele disse que faz parte da natureza do trabalho, mas que ele gosta também do uso da tecnologia, embora seja uma imensa tragédia quando esse aparato todo não funciona. Uma tela azul quando alguém aperta o “play” leva embora tudo que o teatro tenta construir. Aliás, o primeiro computador que teve, foi um MacIntosh, dado pelo Celso (Frateschi), que ele usou muito tempo como abajur. “Tinha uma luz linda aquele computador…”.
Perguntado sobre como se prepara para seus trabalhos, ele contou que já teve todo tipo de ritual, mas que largou-os todos. Quando alguém vive sozinho e gosta dessa solidão, segundo ele, o teatro começa quando sai de casa. Ele caminha pensando no texto e, ao chegar ao teatro, já lembrou-o todo. Depois disso, ainda varre o palco e simplesmente faz o que tem de ser feito. Tudo já é teatro desde o momento em que sai de casa.
Ele continua assistindo teatro e contou sobre a vez em que viu Cleyde Yáconis fazendo “Caminho para Meca” e havia apenas 30 pessoas na platéia. Ele pensou no absurdo que acontecia ali. Depois, falando com ela no camarim, vendo a alegria que ela demonstrou por estar ali, sentiu até vergonha de ter pensado aquilo durante a peça.
Sobre ver teatro, comentou que o importante é ter os olhos para ver o que o outro faz e se espantar com o diferente, sem a recorrente atitude de, através dos outros, ver apenas como vc mesmo faria aquele trabalho.
Próximo TEATRO, VINHO E PENSAMENTO é dia 04 de novembro com MARIA RITA KHEL, dando início aos seminários A CIDADE TEATRALIZADA. Fique atento à programação!
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
SOU UM HOMEM RIDÍCULO
SOU UM HOMEM RIDÍCULO
Há momentos na vida em que se acumulam sobre as nossas verdades, o pó dos tempos. A verdade se solidifica e perde o brilho, o que nos movia adiante passa a nos paralisar e o pó umedecido pelos lamentos, seca numa triste argamassa de crtezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que trouxe esta provocação de Dostoievski. Não possuo as suas crenças, mas desejo a sua inquietação. Busco no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade.
Há momentos na vida em que se acumulam sobre as nossas verdades, o pó dos tempos. A verdade se solidifica e perde o brilho, o que nos movia adiante passa a nos paralisar e o pó umedecido pelos lamentos, seca numa triste argamassa de crtezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que trouxe esta provocação de Dostoievski. Não possuo as suas crenças, mas desejo a sua inquietação. Busco no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade.
Talvez, mais do que nunca, necessitemos de um projeto ridículo de nos entendermos como um todo. Talvez ainda sejamos ridículos o suficiente para crer em algumas criações da humanidade como a ética e a estética. Talvez a beleza, mesmo que ridícula, ainda possua algum sentido. Quem sabe as coisas são como são porque as forjamos assim e não por que são inevitáveis e por isso valha a pena o ridículo de tentar transformá-las? Creio que seja possível a busca de um teatro sem adjetivos. Um teatro que afirme negando e vice-versa, mas totalmente despreocupado com a negação e com a auto-afirmação. Que renda todos os créditos aos nossos mestres traindo-os, amável e respeitosamente, que é a forma mais elevada de homenagem que um artista pode prestar ao outro. Um teatro sem legendas que respeite a criatividade e a inteligência da platétia, que evite a soberba preguiça de que tudo já foi feito e se lance sem rede de proteção na aventura do desconhecido. Que não se limite e nem se intimide com as aparências. Que assuma o homem como seu trabalho. Que perceba que cada época se produz e que o artista se produz ativa, crítica, arriscada e prazerosamente!
Há momentos na vida em que se acumulam sobre as nossas verdades, o pó dos tempos. A verdade se solidifica e perde o brilho, o que nos movia adiante passa a nos paralisar e o pó umedecido pelos lamentos, seca numa triste argamassa de crtezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que trouxe esta provocação de Dostoievski. Não possuo as suas crenças, mas desejo a sua inquietação. Busco no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade.
Há momentos na vida em que se acumulam sobre as nossas verdades, o pó dos tempos. A verdade se solidifica e perde o brilho, o que nos movia adiante passa a nos paralisar e o pó umedecido pelos lamentos, seca numa triste argamassa de crtezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que trouxe esta provocação de Dostoievski. Não possuo as suas crenças, mas desejo a sua inquietação. Busco no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade.
Talvez, mais do que nunca, necessitemos de um projeto ridículo de nos entendermos como um todo. Talvez ainda sejamos ridículos o suficiente para crer em algumas criações da humanidade como a ética e a estética. Talvez a beleza, mesmo que ridícula, ainda possua algum sentido. Quem sabe as coisas são como são porque as forjamos assim e não por que são inevitáveis e por isso valha a pena o ridículo de tentar transformá-las? Creio que seja possível a busca de um teatro sem adjetivos. Um teatro que afirme negando e vice-versa, mas totalmente despreocupado com a negação e com a auto-afirmação. Que renda todos os créditos aos nossos mestres traindo-os, amável e respeitosamente, que é a forma mais elevada de homenagem que um artista pode prestar ao outro. Um teatro sem legendas que respeite a criatividade e a inteligência da platétia, que evite a soberba preguiça de que tudo já foi feito e se lance sem rede de proteção na aventura do desconhecido. Que não se limite e nem se intimide com as aparências. Que assuma o homem como seu trabalho. Que perceba que cada época se produz e que o artista se produz ativa, crítica, arriscada e prazerosamente!
DOIDO - SOLO DE ELIAS ANDREATO
ÁGORA TEATRO APRESENTA:
DOIDO - ESPETÁCULO SOLO DE ELIAS ANDREATO
Encenação
O espetáculo fala de amor, de loucura e de arte mostrando ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum. Um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal.
A montagem não utiliza um gestual teatral formal para que, através apenas da palavra, o público seja encantado e arrebatado pelo pensamento de grandes filósofos, pensadores, poetas e dramaturgos.
Para contar essa história criamos um mágico desenho de luz, para permitir que o ator utilizando apenas sua máscara facial, construa suas personagens diante do espectador.
A idéia é que sentado à sua mesa e rodeado por seus objetos esse homem seja um caixeiro viajante, um mascate, um mercador de sonhos.
O figurino constrói esse personagem acrescentando a ele um tom farsesco que no final revela uma camisa de força ocultada pelo paletó surrado e destruturado.
“Doido” pretende apenas perpetuar os momentos de amor, lucidez e de loucura onde o ator, esse ser atormentado pela criação artística, busca manter-se vivo no seu habitat o teatro.
É no teatro, “a grande casa de loucos da humanidade”, onde podemos viver intensamente todos os personagens e espiá-los pelo buraco da fechadura, vasculhando suas celas e roubando-lhes suas almas, para que essa genialidade possa nos trazer alguma sabedoria.
Elias Andreato
Ficha técnica
Luz: WAGNER FREIRE
Figurino: LAURA HUZAK ANDREATO
Cenário: LUIS ROSSI
Programação visual: ELIFAS ANDREATO
Assistente de direção: DAVID KAWAI
Realização: MORENTE FORTE COMUNICAÇÕES
DOIDO - ESPETÁCULO SOLO DE ELIAS ANDREATO
Encenação
O espetáculo fala de amor, de loucura e de arte mostrando ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum. Um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal.
A montagem não utiliza um gestual teatral formal para que, através apenas da palavra, o público seja encantado e arrebatado pelo pensamento de grandes filósofos, pensadores, poetas e dramaturgos.
Para contar essa história criamos um mágico desenho de luz, para permitir que o ator utilizando apenas sua máscara facial, construa suas personagens diante do espectador.
A idéia é que sentado à sua mesa e rodeado por seus objetos esse homem seja um caixeiro viajante, um mascate, um mercador de sonhos.
O figurino constrói esse personagem acrescentando a ele um tom farsesco que no final revela uma camisa de força ocultada pelo paletó surrado e destruturado.
“Doido” pretende apenas perpetuar os momentos de amor, lucidez e de loucura onde o ator, esse ser atormentado pela criação artística, busca manter-se vivo no seu habitat o teatro.
É no teatro, “a grande casa de loucos da humanidade”, onde podemos viver intensamente todos os personagens e espiá-los pelo buraco da fechadura, vasculhando suas celas e roubando-lhes suas almas, para que essa genialidade possa nos trazer alguma sabedoria.
Elias Andreato
Ficha técnica
Luz: WAGNER FREIRE
Figurino: LAURA HUZAK ANDREATO
Cenário: LUIS ROSSI
Programação visual: ELIFAS ANDREATO
Assistente de direção: DAVID KAWAI
Realização: MORENTE FORTE COMUNICAÇÕES
MATÉRIA SOBRE “O GRANDE INQUISIDOR” NO ESTADÃO
MATÉRIA SOBRE “O GRANDE INQUISIDOR” NO ESTADÃO
Por Beth Néspoli
Para quem deseja vivenciar uma transposição cênica da obra de Dostoievski, estreiou no Ágora uma montagem que tem tudo para trazer à tona uma multiplicidade de questões humanas - o O Grande Inquisidor.
A aposta pode ser feita pelos artistas envolvidos na montagem. Esse texto, uma narrativa retirada do romance Os Irmãos Karamazov, será interpretado por Celso Frateschi, sob direção de Rubens Rusche. Frateschi já conseguira levar ao palco com rara felicidade um conto de Dostoievski, Sonho de Um Homem Ridículo, texto à primeira vista bem pouco teatral. É de se imaginar que possa tirar ainda muito mais proveito de O Grande Inquisidor cuja carga dramática já atraiu dezenas de atores e diretores, entre eles Patrice Chèreau, Peter Brook e, no Brasil, Domingos Oliveira. Rusche é um ‘homem culto’, de sólida e ampla formação filosófica, que domina seu métier, como mostrou em montagens como Fim de Jogo, de Beckett, e Ânsia, de Sarah Kane.
Juntos, eles vêm há meses trabalhando sobre O Grande Inquisidor e, pelas entrevistas de ambos ao Estado, podem surpreender até quem conhece o texto. Dostoievski ambienta no século 16 essa narrativa feita pelo personagem ateu Ivam Karamazov ao seu irmão Aliocha, um noviço. “À primeira vista é um libelo anticlerical e pode ser lido assim, porém o desafio é trazer as outras questões à tona”, diz Frateschi. Em síntese, o texto flagra o encontro de um cardeal Inquisidor com Jesus numa cela de prisão. A cidade está tomada por fogueiras, cerca de cem hereges serão queimados publicamente, “um evento” a um só tempo medonho e excitante. Nesse dia Jesus volta à Terra. É reconhecido, começa a ser seguido pela multidão, faz milagres. Seus feitos chegam aos ouvidos do Inquisidor que manda prendê-lo e, na madrugada, vai vê-lo na cela.
Diante do olhar terno do prisioneiro silencioso ele faz um discurso no qual reconhece a distância entre o cristianismo em sua essência e a instituição da qual é poderoso representante. Mas justifica esse ‘desvio’ como necessário. Relembra as tentações no deserto, nas quais Jesus se negou a fazer milagres para que os homens escolhessem o caminho do bem sem serem conduzidos a isso pelo pão, pelo medo ou ‘efeito’, para argumentar que a maioria dos homens é frágil, covarde e não suporta o peso do livre-arbítrio. Em síntese, ele diz que Deus só ama uns poucos eleitos, ao passo que ele sim ama os fracos. “E joga os que se rebelam, os fortes, na fogueira”, observa Rusche.
Revisão
O texto permite a leitura anticlerical e a de cunho político. “A argumentação do Inquisidor é fonte de regimes totalitários, sejam de esquerda ou direita”, diz Rusche. Mas há outra camada, mais difícil de trazer à tona, sobre a qual Frateschi e Rusche trabalham. Esse cardeal, aos 90 anos, está próximo da morte. Essa aparição, não importa se é mesmo Jesus ou não, provoca uma revisão em sua vida. Afinal, um dia ele jejuou no deserto, foi jovem e idealista, acreditou na essência do cristianismo e agora tenta justificar o rumo tomado. “É legítimo perguntarmos: por que ele sacrificaria sua própria alma em nome de uma raça pela qual sente profundo desprezo? Esse é o paradoxo que mais salta à vista.” De certa forma, o poderoso Inquisidor se depara com a sua fragilidade diante do livre-arbítrio. Poderia ter escolhido outro caminho. Rendeu-se?
“Seja por sobrevivência, comodismo ou pelo jogo da vida as pessoas tomam caminhos que as embrutecem.” Um dia vem a crise. No Ágora, Mauro Schames assume o difícil papel de espelho silencioso para o Inquisidor.
O Grande Inquisidor - Teatro Ágora. R. Rui Barbosa, 672, 3284-0290. 6ª e sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 27/6
Por Beth Néspoli
Para quem deseja vivenciar uma transposição cênica da obra de Dostoievski, estreiou no Ágora uma montagem que tem tudo para trazer à tona uma multiplicidade de questões humanas - o O Grande Inquisidor.
A aposta pode ser feita pelos artistas envolvidos na montagem. Esse texto, uma narrativa retirada do romance Os Irmãos Karamazov, será interpretado por Celso Frateschi, sob direção de Rubens Rusche. Frateschi já conseguira levar ao palco com rara felicidade um conto de Dostoievski, Sonho de Um Homem Ridículo, texto à primeira vista bem pouco teatral. É de se imaginar que possa tirar ainda muito mais proveito de O Grande Inquisidor cuja carga dramática já atraiu dezenas de atores e diretores, entre eles Patrice Chèreau, Peter Brook e, no Brasil, Domingos Oliveira. Rusche é um ‘homem culto’, de sólida e ampla formação filosófica, que domina seu métier, como mostrou em montagens como Fim de Jogo, de Beckett, e Ânsia, de Sarah Kane.
Juntos, eles vêm há meses trabalhando sobre O Grande Inquisidor e, pelas entrevistas de ambos ao Estado, podem surpreender até quem conhece o texto. Dostoievski ambienta no século 16 essa narrativa feita pelo personagem ateu Ivam Karamazov ao seu irmão Aliocha, um noviço. “À primeira vista é um libelo anticlerical e pode ser lido assim, porém o desafio é trazer as outras questões à tona”, diz Frateschi. Em síntese, o texto flagra o encontro de um cardeal Inquisidor com Jesus numa cela de prisão. A cidade está tomada por fogueiras, cerca de cem hereges serão queimados publicamente, “um evento” a um só tempo medonho e excitante. Nesse dia Jesus volta à Terra. É reconhecido, começa a ser seguido pela multidão, faz milagres. Seus feitos chegam aos ouvidos do Inquisidor que manda prendê-lo e, na madrugada, vai vê-lo na cela.
Diante do olhar terno do prisioneiro silencioso ele faz um discurso no qual reconhece a distância entre o cristianismo em sua essência e a instituição da qual é poderoso representante. Mas justifica esse ‘desvio’ como necessário. Relembra as tentações no deserto, nas quais Jesus se negou a fazer milagres para que os homens escolhessem o caminho do bem sem serem conduzidos a isso pelo pão, pelo medo ou ‘efeito’, para argumentar que a maioria dos homens é frágil, covarde e não suporta o peso do livre-arbítrio. Em síntese, ele diz que Deus só ama uns poucos eleitos, ao passo que ele sim ama os fracos. “E joga os que se rebelam, os fortes, na fogueira”, observa Rusche.
Revisão
O texto permite a leitura anticlerical e a de cunho político. “A argumentação do Inquisidor é fonte de regimes totalitários, sejam de esquerda ou direita”, diz Rusche. Mas há outra camada, mais difícil de trazer à tona, sobre a qual Frateschi e Rusche trabalham. Esse cardeal, aos 90 anos, está próximo da morte. Essa aparição, não importa se é mesmo Jesus ou não, provoca uma revisão em sua vida. Afinal, um dia ele jejuou no deserto, foi jovem e idealista, acreditou na essência do cristianismo e agora tenta justificar o rumo tomado. “É legítimo perguntarmos: por que ele sacrificaria sua própria alma em nome de uma raça pela qual sente profundo desprezo? Esse é o paradoxo que mais salta à vista.” De certa forma, o poderoso Inquisidor se depara com a sua fragilidade diante do livre-arbítrio. Poderia ter escolhido outro caminho. Rendeu-se?
“Seja por sobrevivência, comodismo ou pelo jogo da vida as pessoas tomam caminhos que as embrutecem.” Um dia vem a crise. No Ágora, Mauro Schames assume o difícil papel de espelho silencioso para o Inquisidor.
O Grande Inquisidor - Teatro Ágora. R. Rui Barbosa, 672, 3284-0290. 6ª e sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 27/6
Ruy Cortez dirige Nomes do Pai, que evoca Kafka e Rilke
Silêncio. Peça inspirou também a organização de uma série de encontros com pensadores. Nos anos 1990, então aspirante a ator do Teatro Escola Célia Helena, Ruy Cortez foi sondado pelo tio famoso, Raul Cortez, para montar um espetáculo que unisse dois textos clássicos da literatura: Carta ao Pai, de Franz Kafka, e Cartas a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke. “Raul tinha um grande fascínio pelas palavras e, na sua concepção, ele leria os trechos do Rilke enquanto eu ficaria com os de Kafka”, relembra Ruy que, com a indefinição do projeto (”Eu me direcionei para a direção, enquanto ele se envolveu com outras peças”), guardou a ideia para uma nova oportunidade - que se transformou em Nomes do Pai, em cartaz no Teatro Ágora.
Com o passar dos anos, o projeto amadureceu e tomou novos rumos. O primeiro e mais significativo é a ausência de palavras: em cena, os atores Fábio Takeo e Rafael Steinhauser comunicam-se por gestos e expressões, engrandecidos pela iluminação e por uma trilha sonora especialmente composta. Na essência, o conflito no relacionamento entre pai e filho, tema que inspira outra peça em cartaz, A Grande Volta. “Esse era o ponto de partida do trabalho que o Fábio e o Rafael queriam fazer quando me convidaram para o projeto, em 2007″, conta Ruy, que imediatamente se lembrou da parceria não realizada com Raul.
Assim, as obras de Kafka e Rilke forneceram a base do processo colaborativo. Mas quando surgiu a ideia de não se utilizar a palavra falada? “Foi a partir do texto do Kafka, que é uma carta não enviada ao pai. Assim, essa comunicação não realizada nos inspirou a fazer o espetáculo sem palavras.” Escrito em 1919, o texto que resultou no livro Carta ao Pai é um longo desabafo em que Kafka responsabiliza o pai por sua incapacidade de viver, casar e amar como os outros - sobrou-lhe a literatura, portanto, para exorcizar um grito ameaçado de ficar parado no ar.
Já as Cartas a Um Jovem Poeta, escritas entre 1903 e 1908 com a intenção de revelar ao aspirante Franz Xaver Kappus o intrincado mundo interior do escritor, apontam a solidão como a condição única e verdadeira para a criação de uma obra autêntica. Um tema que, de alguma forma, caminha em paralelo ao torturante universo literário do autor checo.
A transposição para a cena foi meticulosa. Ruy conta que ele e a dupla de atores criavam uma cena para cada página dos livros, sempre sem usar a voz. “Logo, percebemos que o texto do Kafka era mais teatral, portanto, acabou predominando”, explica. “Rilke é quase um negativo de Kafka e, como um iluminava o outro, escolhemos o caminho de examinar a função do pai e as questões da paternidade e, por extensão, a cultura patriarcal.”
DVD. Depois que um punhado de cenas tinha sido criado, o grupo decidiu convidar o dramaturgo Luis Alberto de Abreu para reestruturá-las e dar-lhes uma continuidade - para isso, um disco de DVD com imagens do trabalho em estado bruto lhe foi enviado. “A boa surpresa é que o Abreu, em vez de simplesmente transmitir suas coordenadas, preferiu participar ativamente do processo, participando de nossas reuniões”, observa o diretor.
A construção de uma dramaturgia sem palavras foi, para um escritor aclamado justamente pela coerência e criatividade com que trabalha com elas, um desafio. “O que me seduziu nesse trabalho foi o material teatral já desenvolvido pelos atores e pelo diretor, a partir de Kafka e Rilke: cenas sintéticas, delicadas, belas, em que qualquer palavra pareceria uma intromissão indevida”, comenta o dramaturgo.
Para ele, tudo se torna escrita: a intensidade e o tempo de cada gesto, os elementos cênicos e sua manipulação. “O suporte da escrita se transforma no corpo do ator e suas manifestações. Foi aí que trabalhamos, reconstruindo cada cena e nela procuramos seu núcleo, seu sentido, sua função no contexto do espetáculo; desenvolvemos as relações dramáticas já presentes, alteramos sua intensidade e objetivos; rastreamos e evidenciamos as trajetórias dos personagens; enfim, reorganizamos todo o material.”
O processo se repetiu durante a criação da trilha sonora de Henrique Eisenmann e Tomaz Vital - a partir da tentativa de expressar musicalmente a concisão e a secura da escrita kafkiana, eles criaram um melodia minimalista, executada ao vivo no piano, com eles se revezando a cada apresentação. “A criação inspirou-se tanto no que se produzia naquela época (início do século passado), que eram composições modernistas, como nas cantigas do ensino judaico que marcou a educação de Kafka.”
A mesma filosofia de criação em paralelo inspirou a cenografia de André Cortez e a iluminação de Fábio Retti. Mais que isso: a discussão sobre a paternidade proposta pelo projeto incentivou o filósofo Luiz Felipe Pondé a organizar encontros com pensadores, que ocorrerão em julho e agosto.
Pondé cuida justamente do primeiro, no dia 25 de julho, quando também falará Renata Martins. Em seguida, os debates serão conduzidos por Enrique Mandelbaum, João Carlos Guedes da Fonseca, Lúcia Cortez, Lílian Quintão, Cássia Barreto e Ricardo Goldenberg. “Curiosamente, todos inspirados em um espetáculo construído a partir da ausência da palavra”, diz Ruy.
QUEM FORAM
FRANZ KAFKA
ESCRITOR
Criador de um universo que deixa o leitor atônito diante de personagens que enfrentam situações intoleráveis, nasceu em Praga em 1883 e morreu em 1924,
em Kierling, na Áustria.
RAINER MARIA RILKE
ESCRITOR E POETA
Nasceu em 1875, em Praga. Escreveu uma poesia seminal, da qual as palavras brotam como se fossem os próprios seres da natureza. Morreu em 1926, de leucemia.
Com o passar dos anos, o projeto amadureceu e tomou novos rumos. O primeiro e mais significativo é a ausência de palavras: em cena, os atores Fábio Takeo e Rafael Steinhauser comunicam-se por gestos e expressões, engrandecidos pela iluminação e por uma trilha sonora especialmente composta. Na essência, o conflito no relacionamento entre pai e filho, tema que inspira outra peça em cartaz, A Grande Volta. “Esse era o ponto de partida do trabalho que o Fábio e o Rafael queriam fazer quando me convidaram para o projeto, em 2007″, conta Ruy, que imediatamente se lembrou da parceria não realizada com Raul.
Assim, as obras de Kafka e Rilke forneceram a base do processo colaborativo. Mas quando surgiu a ideia de não se utilizar a palavra falada? “Foi a partir do texto do Kafka, que é uma carta não enviada ao pai. Assim, essa comunicação não realizada nos inspirou a fazer o espetáculo sem palavras.” Escrito em 1919, o texto que resultou no livro Carta ao Pai é um longo desabafo em que Kafka responsabiliza o pai por sua incapacidade de viver, casar e amar como os outros - sobrou-lhe a literatura, portanto, para exorcizar um grito ameaçado de ficar parado no ar.
Já as Cartas a Um Jovem Poeta, escritas entre 1903 e 1908 com a intenção de revelar ao aspirante Franz Xaver Kappus o intrincado mundo interior do escritor, apontam a solidão como a condição única e verdadeira para a criação de uma obra autêntica. Um tema que, de alguma forma, caminha em paralelo ao torturante universo literário do autor checo.
A transposição para a cena foi meticulosa. Ruy conta que ele e a dupla de atores criavam uma cena para cada página dos livros, sempre sem usar a voz. “Logo, percebemos que o texto do Kafka era mais teatral, portanto, acabou predominando”, explica. “Rilke é quase um negativo de Kafka e, como um iluminava o outro, escolhemos o caminho de examinar a função do pai e as questões da paternidade e, por extensão, a cultura patriarcal.”
DVD. Depois que um punhado de cenas tinha sido criado, o grupo decidiu convidar o dramaturgo Luis Alberto de Abreu para reestruturá-las e dar-lhes uma continuidade - para isso, um disco de DVD com imagens do trabalho em estado bruto lhe foi enviado. “A boa surpresa é que o Abreu, em vez de simplesmente transmitir suas coordenadas, preferiu participar ativamente do processo, participando de nossas reuniões”, observa o diretor.
A construção de uma dramaturgia sem palavras foi, para um escritor aclamado justamente pela coerência e criatividade com que trabalha com elas, um desafio. “O que me seduziu nesse trabalho foi o material teatral já desenvolvido pelos atores e pelo diretor, a partir de Kafka e Rilke: cenas sintéticas, delicadas, belas, em que qualquer palavra pareceria uma intromissão indevida”, comenta o dramaturgo.
Para ele, tudo se torna escrita: a intensidade e o tempo de cada gesto, os elementos cênicos e sua manipulação. “O suporte da escrita se transforma no corpo do ator e suas manifestações. Foi aí que trabalhamos, reconstruindo cada cena e nela procuramos seu núcleo, seu sentido, sua função no contexto do espetáculo; desenvolvemos as relações dramáticas já presentes, alteramos sua intensidade e objetivos; rastreamos e evidenciamos as trajetórias dos personagens; enfim, reorganizamos todo o material.”
O processo se repetiu durante a criação da trilha sonora de Henrique Eisenmann e Tomaz Vital - a partir da tentativa de expressar musicalmente a concisão e a secura da escrita kafkiana, eles criaram um melodia minimalista, executada ao vivo no piano, com eles se revezando a cada apresentação. “A criação inspirou-se tanto no que se produzia naquela época (início do século passado), que eram composições modernistas, como nas cantigas do ensino judaico que marcou a educação de Kafka.”
A mesma filosofia de criação em paralelo inspirou a cenografia de André Cortez e a iluminação de Fábio Retti. Mais que isso: a discussão sobre a paternidade proposta pelo projeto incentivou o filósofo Luiz Felipe Pondé a organizar encontros com pensadores, que ocorrerão em julho e agosto.
Pondé cuida justamente do primeiro, no dia 25 de julho, quando também falará Renata Martins. Em seguida, os debates serão conduzidos por Enrique Mandelbaum, João Carlos Guedes da Fonseca, Lúcia Cortez, Lílian Quintão, Cássia Barreto e Ricardo Goldenberg. “Curiosamente, todos inspirados em um espetáculo construído a partir da ausência da palavra”, diz Ruy.
QUEM FORAM
FRANZ KAFKA
ESCRITOR
Criador de um universo que deixa o leitor atônito diante de personagens que enfrentam situações intoleráveis, nasceu em Praga em 1883 e morreu em 1924,
em Kierling, na Áustria.
RAINER MARIA RILKE
ESCRITOR E POETA
Nasceu em 1875, em Praga. Escreveu uma poesia seminal, da qual as palavras brotam como se fossem os próprios seres da natureza. Morreu em 1926, de leucemia.
Nomes do Pai

Inspirando-se nos textos “Carta ao Pai”, de Kafka e “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke, a montagem investiga a paternidade e a cultura patriarcal. Kafka teria escrito esse texto num clima de rompimento com seu pai, que desaprovara seu casamento com a filha de um zelador de sinagoga. Mas, o pretexto imediato para a criação do texto foi o fato do autor ter sido questionado por seu pai porque afirmava sentir medo dele. “Cartas a um Jovem Poeta” é o texto mais conhecido de Rilke, em que se apresenta a generosa correspondência com um iniciante que lhe pede socorro num momento decisivo da sua vocação de escritor. Nessa obra, ele fala da formação humana como base de toda criação artística e aponta a necessidade de um caminho ético na arte. É como um alerta aos vícios de nossa época.Ainda na época em que estudava interpretação, Ruy Cortez, diretor da peça, foi convidado pelo tio, o ator Raul Cortez, para montar um espetáculo a partir da junção desses dois textos. Essa montagem nunca se realizou, mas a ideia permaneceu a se transformou em “Nomes do Pai” que tem a dramaturgia de Luis Alberto de Abreu.
Sala Gianni Ratto (88 lugares)
SÁB: 18h00 e DOM: 17h00
INGRESSOS: R$ 30,00 (inteira), R$15,00 (meia)
Convênio com Estacionamento: CAR PARK (Rua Rui Barbosa, 714 - R$ 5,00)
O GRANDE INQUISIDOR - TEMPORADA ESTENDIDA ATÉ 12 DE SETEMBRO!

Em Sevilha, na mais terrível época da Inquisição, um homem, que é visto fazendo milagres e sendo seguido por multidões, é preso pelo Santo Ofício. O povo o reconheceu como o Cristo retornado ao mundo dos homens, mas ele é sentenciado pelo Cardeal, o Grande Inquisidor, à morte na fogueira. Em sua cela, ao anoitecer, o próprio Cardeal vem interrogá-lo, mas acaba fazendo uma surpreendente revelação Aparentemente uma inocente parábola religiosa, “O Grande Inquisidor” é, na verdade, um discurso político, em que, acima de tudo, a liberdade humana está no centro da discussão.Com direção e adaptação de Rubens Rusche, a peça tem Celso Frateschi no papel do Grande Inquisidor e Mauro Schames como o Prisioneiro. Sylvia Moreira assina o cenário e figurinos.
AUTOR: Fiódor Dostoiévski
DIREÇÃO E ADAPTAÇÃO: Rubens Rusche
ELENCO: Celso Frateschi e Mauro Schames
CENÁRIO E FIGURINOS: Sylvia Moreira
ILUMINAÇÃO: Wagner Freire
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: André PizaSala Gianni Ratto (88 lugares)
SEX E SÁB: 21h30 Dom: 20h
INGRESSOS: R$ 30,00 (inteira), R$15,00 (meia)
Convênio com Estacionamento: CAR PARK (Rua Rui Barbosa, 714 - R$ 5,00)
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